20 Novembro de 2020 | 13h11

NOVO SANATÓRIO DE LUANDA

Moderno hospital abre novas perspectivas no tratamento da tuberculose

A movimentação de homens e de máquinas de pequeno e grande porte é constante. Os técnicos, em grupos de cinco a dez, trajados com o rigor que se exige em empreitadas de construção civil, são vistos numa enorme concentração naquilo que fazem. Mesmo assim, há um ou outro que, nalguns instantes, solte a voz e mostre o talento para a música, acompanhado de assobios harmonizados de colegas.

Dá até a sensação de que a música, anedotas e conversas em torno da política nacional, desporto e do quotidiano luandense são como antídotos para inibir a preguiça e o impacto dos mais de 30 graus Celsius que se faziam sentir no dia da reportagem. 

Em terra, em pé ou agachados, e lá no alto das paredes suportados por andaimes de ferro, há homens, uns com coletes de tom laranja e outros de verde, capacetes brancos, botas e luvas, a dar vida às obras que vão albergar o futuro Hospital Sanatório de Luanda, em construção, desde Agosto do ano passado, no mesmo quintal da antiga unidade de tratamento da tuberculose, na avenida Pedro de Castro Van-Dúnen "Loy”, no bairro Palanca.

Esse cenário, meio agitado, é verificado, desde as primeiras horas do dia até à tardinha, entre segunda-feira e sábado. São mais de 850 técnicos, entre engenheiros das especialidades de electromecânica, electrotecnia e hidráulica, auxiliados por outros vários operários, que asseguram a edificação de cinco torres de quatro pisos cada. São os mesmos que, mais tarde, devem empenhar-se na reabilitação do antigo edifício do Sanatório.

O engenheiro civil Loth Sabino, o nosso guia à visita de mais ou menos duas horas ao novo edifício, explica que tudo está a ser feito para que a empreitada seja concluída em Novembro do próximo ano, tendo em conta as pequenas alterações que o projecto inicial sofreu, depois das recomendações do dono da obra, o Ministério da Saúde.

Para cumprir os prazos, a construtora, apesar dos transtornos causados pela Covid-19, fez um incremento de mais 350 técnicos. Antes da pandemia, eram 500 homens envolvidos na obra. A ideia é criar turnos, nos próximos tempos, quando chegarem a fases mais específicas da empreitada.

Com as torres erguidas, numa área de 49.940 metros quadrados, e feitos os pontos de ligação com o antigo Sanatório, as obras do novo hospital estão em mais ou menos 32 por cento de execução global (física e financeira). Até Março ou Abril, a percentagem de cumprimento pode estar próximo dos 60 por cento, e do ponto de vista de avanços físicos em 49 por cento. 

Orçado em 214 milhões, 85 mil e 456,35 dólares, valores que envolvem a construção, reabilitação e apetrechamento, o estabelecimento vai dispor de 17 elevadores, sendo 13 no novo hospital, três no antigo e um no edifício de formação, e escadas de emergências em todas as torres, além de uma rede de incêndios.

Num passo acelerado, embora com pequenas paragens para dar esclarecimentos sobre a empreitada, o jovem engenheiro angolano realça, com algum orgulho, que a unidade será das mais modernas do país, ultrapassando a tecnologia que existe actualmente nas maiores clínicas privadas. "Sentimo-nos felizes, por estar a dar um valioso contributo para a edificação de um dos maiores projectos do sector da Saúde”.

Novos serviços

Com mais de 300 camas, 212 das quais em quartos de isolamento e 88 nas enfermarias gerais, o novo hospital vai dispor de um conjunto de componentes tecnológicas que o actual Sanatório não oferece, com destaque para serviços de ressonância, anatomia patológica, ambulatório com todas as valências de uma unidade docente, bloco operatório, com quatro salas, e cuidados intensivos.

O novo Sanatório vai reservar 36 camas na enfermaria pediátrica, 60 na enfermaria de tuberculose multirresistente e igual quantidade para a área de HIV/TB, bem como 20 outras na Unidade de Cuidados Intensivos (UCI) de infectados e 18 no sector da cirurgia.

O director-geral do Sanatório, Carlos Alberto Masseca, confirma que esta nova unidade está projectada para ser a mais moderna do país. Justifica que o novo Sanatório vai dispor de serviços de broncoscopia, cirurgias torácica, geral e cardíaca, hematologia, tomografia auxiliar computarizada, ultra-sonografia, entre outras tecnologias que vão ajudar na formação de especialistas em pneumologia, dos quais tisiologistas.

Carlos Alberto Masseca apontou várias transformações que o atendimento aos pacientes vai beneficiar. A hemodinâmica, Unidade de Terapia Intensiva (UTI), serviços de imagiologia, vários laboratórios e meios de diagnósticos são só outras das novidades.

Além disso, o novo hospital vai ganhar um parque de estacionamento para cerca de 450 viaturas, anuncia o engenheiro Loth Sabino, acompanhado de dois elementos da equipa de fiscalização da obra. Outra boa nova, refere, é a projecção de uma valência cardíaca e 40 quartos só para pacientes renais, com serviços de hemodiálise instalados.

Se o antigo hospital dispõe de uma morgue, com 12 gavetas, o engenheiro Loth Sabino adianta que a nova unidade terá um total de 18, além de um serviço de necrotério, para a realização de autópsias.

Centro de Simulação Médica

Porém, para Carlos Masseca, a grande joia do novo hospital é o Centro de Simulação Médica. Com esse e outros serviços, o Sanatório vai cumprir as missões de diagnosticar, tratar, reabilitar, além da investigação científica e da formação de quadros quer de nível superior (incluindo a pós-graduada), quer médio.

Para a formação, o novo hospital terá um edifício com um auditório de formação para acolher mais de 150 pessoas e uma sala de treinamento de casos de broncoscopia.

Os quadros existentes no país serão aproveitados conforme a complexidade técnica e de engenharia do novo hospital. Um grupo do ramo de Enfermagem já começou a fazer especialização, há três semanas, na Escola Técnica de Formação de Pessoal da Saúde, organizada pelo Ministério da Saúde, segundo Carlos Masseca, que também salienta que, no concurso público passado, entraram para a unidade sanitária um grupo de médicos que se encontra já em especialização.

"Internamente, vamos começar com as especializações em infecciologia, medicina interna e pneumologia”, anunciou o médico, tendo acrescentado que o projecto do novo hospital prevê a componente de formação dos técnicos.

Há uma previsão de recursos consideráveis para a formação, razão pela qual acredita que a capacitação e refrescamento contínuos de todos os técnicos do Sanatório, incluindo os gestores principais, vão ser uma realidade.

Carlos Alberto Masseca fez referência a três engenheiros recém-formados, sendo dois nas áreas de construção civil e um em electromedicina, bem como um técnico médio de Arquitectura, já inseridos na empreitada do novo hospital.

"A ideia da inserção desses quadros do Sanatório é fazer com que os mesmos, com acompanhamento das empresas construtora e fiscalizadora, absorvam conhecimentos das várias componentes da nova unidade de saúde, no sentido de criar, a partir deles, a estrutura técnica que vai velar pela manutenção do edifício e dos equipamentos”.

Fábrica de oxigénio e gases

Durante a visita, a equipa de reportagem constatou que os trabalhos de instalação de sistemas de água e de energia eléctrica estão muito avançados, assim como a colocação de portas e janelas, e de painéis nas paredes externas.

Em Janeiro, chegam os equipamentos para a montagem dos revestimentos dos pisos, garante o jovem engenheiro, que em seguida estendeu o indicador da mão direita para mostrar que as obras do Programa Alargado de Vacinação (PAV) estão quase prontas.

Loth Sabino, que pertence à construtora Omapatalo, disse que o novo Sanatório de Luanda vai dispor de uma fábrica de oxigénio e gases.

Enquanto decorrem as obras da nova unidade clínica, que vai funcionar como hospital-escola, há uma grande expectativa entre pacientes, trabalhadores e membros da direcção do Sanatório para verem o fim dessa empreitada. 

O hospital Sanatório foi fundado a 15 de Julho de 1972, pelo capitão de fragata Leão do Sacramento Monteiro, então secretário de Estado da Administração Ultramarina.