Governo
23 Fevereiro de 2021 | 12h02

EQUIPAMENTO MONTADO NO PAÍS

Tractores estimulam produção agrícola

A agilidade de Odeth Makisse no trabalho do campo condiz com o semblante aberto, sobretudo quando o assunto é trabalhar a terra. O tom da voz e os largos passos que marca no terreno argiloso e escurecido, desbravado pelo trator, faz dela uma agricultora de "fibra”, que agora só precisa da chuva para fazer a colheita.  

À entrada do bairro Ana Ngola, na Barra do Dande, não são poucos hectares da lavoura que murcham por falta de chuvas. Plantações de milho e de mandioqueira vão ser arrancadas tão logo "São Pedro” abrir as torneiras, para dar lugar a novas sementes.  

Não fosse a falta de chuva, aqueles hectares cultivados, naquela circunscrição da província do Bengo, já teriam milho para o consumo.  

"É uma produção perdida”, atesta Odeth Makiesse, de tênis e um lenço preto envolto à cabeça. Ela é presidente da direcção executiva da Cooperativa Kussanguluka, sedeada na comuna do Úcua, província do Bengo. Ela está no bairro Ana Ngola para trabalhar em mais de um hectare de terra, cedida à Cooperativa Kussanguluka, no âmbito de uma parceria com Gabriel Caquarta, responsável da Cooperativa Vaiolela. Em troca, Odeth Makiesse vai disponibilizar o trator para ajudar outros camponeses na preparação do solo.  

O trator foi oferta do Presidente da República, João Lourenço, em Outubro do ano passado, no dia da inauguração da empresa Kaheel– Agricultura Angola, que se dedica à montagem deste tipo de equipamento no país, para melhorar a actividade agrícola. 

"Louvamos a iniciativa do Governo, por ter minorado uma das grandes dificuldades que a cooperativa enfrentava na preparação da terra”, argumentou. 

A sua forma vibrante de enaltecimento tem uma justificação:  anteriormente, faziam uma agricultura familiar apenas para o auto-sustento. Mas agora, com a "graça” de um trator, o trabalho está facilitado. 

"Desde que recebemos a máquina, estamos a realizar uma agricultura mecanizada, que vai ajudar o aumento da produção, diminuir a importação e melhor a dieta alimentar no seio das famílias”, disse Odeth Makiesse, com esperança de que as outras cooperativas também tenham a mesma sorte de beneficiar de um trator.  

"Estou muito satisfeita e não tenho palavras para agradecer”, balbucia, com o rosto a traduzir grande emoção pelo novo tempo. 

Nesta altura, a Cooperativa Kussanguluka prepara mais de 100 hectares de terra para fazer a plantação de milho. O trabalho está a ser feito com a cooperativa Vaiolela e tão logo chegue a colheita, ambas vão poder vender várias toneladas deste produto. 

"Que Deus mande chuva para fazer crescer o milho, uma vez que o terreno é propício para esse cultivo”, lançou as preces.  

Não é só da agricultura que vive a Cooperativa Kussanguluka. Tem mais de 700 galinhas que precisam de ração animal. A plantação de milho neste campo, visa também produzir ração. A cooperativa, criada há mais de sete anos, está composta por 210 cooperadores, na sua maioria mulheres. 

De blusa verde e pintalgada, Odeth comanda e incentiva mulheres resilientes. "Tenho muita facilidade em lidar com mulheres”.

Para este ano, a produção de batata inhame, mandioca, jinguba, milho, banana e feijão macunde vai registar um aumento substancial com a presença de trator na preparação do campo no Ana Ngola.  

No Úcua, a Cooperativa Kussanguluka tem já plantado aproximadamente 100 hectares de mandioca, separado do milho e do tomate. "Antes púnhamos tudo no mesmo lugar, mas agora temos tudo separado, graças ao trator que nos facilita preparar vários hectares de terra”, anotou. 

De acordo com a presidente da Cooperativa Kussanguluka, grande parte da produção deste ano já vai ser comercializada, o que não ocorria nos anos anteriores, "porque as quantidades eram reduzidas e só dava para vender, às vezes, nos mercados do 30 e do Sassa Povoação. Desta vez, já vamos poder vender aos supermercados”. 

No quadro do programa de combate à pobreza, o Governo Provincial do Bengo vai terraplanar o caminho que dá às zonas de cultivo da Cooperativa Kussanguluka, no sentido de melhorar o acesso e, por conseguinte, facilitar o escoamento dos produtos. 

Odeth Makiesse conta que ainda não solicitou crédito agrícola, mas prevê inscrever-se até ao final do ano no PRODESI (Programa de Apoio a Produção, Diversificação das Exportações e Substituições das Importações). A pretensão é obter dinheiro e abrir furos de água. Com a falta de chuva, sente-se mais impulsionada a pedir crédito para proporcionar a irrigação dos campos.

"Se já tivéssemos beneficiado de crédito, estaríamos de mãos atadas, porque não há chuva para as sementes germinarem e não teríamos como reembolsar”, explicou. 

De repente, a conversa é interrompida pelo operador Constantino para informar a presidente da Cooperativa Kussanguluka que o pneu do trator furou pela segunda vez. A mulher aproveita para fazer um apelo ao fabricante do trator para adaptar as alfaias e pneus, em função do terreno duro de algumas regiões do país, mas assegura que o trator tem dado muita ajuda ao trabalho e tem um motor potente.  

"Queremos que o fabricante adapte o trator, olhando para o nosso terreno que é acentuado e argiloso”, solicita Odeth Makiesse, contando que tiveram de fazer algumas adaptações ao equipamento para suprir as dificuldades do terreno. 

Em menos de uma semana, o trator trabalhou num vasco campo, que um agricultor não conseguia sequer cultivar metade no tempo em que a cooperativa não tinha esse equipamento.  

Para Odeth Makiesse, a tese de Agostinho Neto, primeiro presidente de Angola, segundo a qual a agricultura é a base do desenvolvimento, está a ser tida em conta hoje. "Com a força dos camponeses de todo o país, vamos dar fim à importação de determinados produtos e, se possível, ter capacidade para exportar e melhorar a cesta básica dos angolanos”. 

O próximo desafio da Cooperativa Kussanguluka é adquirir uma moagem, para produzir fuba e ração para as aves.