África
06 Setembro de 2020 | 14h09

Desenvolvimento económico de África

PR defende investimentos na formação massiva de quadros qualificados

O Presidente da República, João Lourenço, defendeu esta sexta-feira (4 de Setembro) a aposta na formação massiva de quadros qualificados nos diferentes ramos do saber por forma a se obterem resultados positivos no esforço de desenvolvimento económico, industrial e tecnológico de África.

João Lourenço falava, em vídeo conferência, num painel de alto nível enquadrado na Terceira Edição da Cimeira Global de Manufacturação e Industrialização, que se realiza até amanhã por iniciativa da Agência das Nações Unidas para o Desenvolvimento Industrial, ONUDI.

O primeiro dia foi reservado a um painel de alto nível, durante o qual se conheceram as ideias de vários Chefes de Estado africanos, entre os quais o Presidente João Lourenço, de Angola, a respeito da Industrialização do Continente Africano, com uma nova perspectiva de aceleração ancorada no "Plano Marshall da Alemanha com a África”.

"Teremos sucesso no nosso esforço de desenvolvimento económico, industrial e tecnológico de África se o continente apostar seriamente em investir na formação massiva de quadros qualificados nos mais diferentes ramos do saber e conseguir criar políticas que motivem a permanência desses quadros nos respectivos países”, disse o Presidente da República sobre o tema.

​ O estadista angolano fez notar que "África​ é um dos continentes com as maiores reservas mundiais de recursos naturais como a água dos rios e lagos, terras aráveis, florestas e abundantes recursos minerais, entre os quais alguns raros e estratégicos mas que, apesar disso e paradoxalmente, é o continente menos desenvolvido do ponto de vista económico, industrial e tecnológico”.

João Lourenço asseverou que, para a actual situação contribuiu negativamente a colonização a que o continente esteve submetido ao longo de séculos e as actuais relações entre África e o mundo industrializado, nas injustas trocas comerciais das matérias-primas produzidas por África e os bens de consumo manufacturados pelos mais desenvolvidos.

O Presidente da República defendeu a necessidade de se criarem, em África, postos de trabalho, investindo em infra-estruturas como estradas, portos, caminhos-de-ferro, na produção e distribuição de água e de energia eléctrica, assim como nas telecomunicações e tecnologias de informação.



O Chefe de Estado, que considerou a actual crise uma oportunidade para repensar o desenvolvimento de África, afirmou que Angola está empenhada na criação de um ambiente de negócios propício ao investimento privado, desde 2018, com a actualização da legislação de proteção da propriedade privada e do investimento estrangeiro, a facilitação ou isenção dos vistos para os investidores e os turistas, assim como o combate acérrimo contra a corrupção e a impunidade, "cujos efeitos benéficos na economia e na sociedade já se fazem sentir”.

Nesta perspectiva, assinalou, o país está a melhorar e ampliar a rede de estradas nacionais de todas as categorias, continua a investir no aumento da oferta de água e energia para as indústrias e para as populações e em breve concluirá a montagem do Aproveitamento Hidroeléctrico de Laúca, que vai gerar 2.070 MW de energia para distribuir pelo centro, sul e leste do país.


Privatizações

O Chefe de Estado lembrou que está em curso o processo de privatizações de um número considerável de activos do Estado em praticamente todos os ramos da economia nacional, na agricultura, na indústria, nos petróleos, nos transportes, na banca, etc.

João Lourenço destacou igualmente o concurso para a concessão da gestão do Porto de Luanda, que decorre neste momento, ao que se seguirá processo idêntico para a concessão do Porto do Lobito e do Caminho de Ferro de Benguela, que liga com as regiões mineiras do Katanga, na RDC, e do cobre da Zâmbia.

"Sendo Angola um país rico em recursos minerais, para garantir maior transparência na concessão e exploração dos mesmos, finalmente o Executivo angolano deu início ao processo de adesão à Iniciativa para a Transparência nas Indústrias Extractivas, o que pode dar maior garantia de investimento privado estrangeiro neste importante sector da nossa economia”, sublinhou também.

Sobre a iniciativa das autoridades alemães, o Presidente João Lourenço considerou o "Plano Marshall para a África como uma forma de cooperação efectiva para que o nosso continente possa avançar de modo firme e rápido no processo da sua industrialização.Ele pode contribuir para que se criem no nosso continente as condições necessárias para atrair o investimento privado, para conduzir ao crescimento económico e a criação de empregos”.

Na opinião do Chefe de Estado angolano, este Plano deve focar-se na diversificação económica, no estabelecimento de mecanismos de produção em rede, com uma atenção muito especial na agricultura e nas micro, pequenas e médias empresas. "A Europa pode ajudar neste domínio dando maiores facilidades de acesso dos produtos africanos ao mercado da União Europeia e diminuindo ou eliminando as barreiras alfandegárias.​ Pode também focar-se no desenvolvimento e modernização das infra-estruturas básicas como energia, água, vias de comunicação, telecomunicações, bem como reforçar a capacidade das nossas instituições”.

"Da mesma forma que em 1948, ao tempo do Presidente Harry Truman, três anos após o fim da Segunda Guerra Mundial o general George Marshall, então Secretário de Estado norte-americano, considerava ser vital a ajuda americana aos países europeus para a sua reconstrução e estabilidade económica e social, tendo nascido o programa de ajuda que ficou conhecido como o Plano Marshall em sua homenagem, também hoje é de vital interesse para a Europa e o mundo ter uma África desenvolvida e com estabilidade económica e social”, defendeu João Lourenço.​ ​

Em detalhe, o Presidente João Lourenço explicou como gostaria de ver concretizada a iniciativa avançada pelas autoridades alemãs:

"O que África pretende é somente a necessidade de manter uma relação de cooperação que seja mais justa, igual e com reciprocidade de vantagens. Desta forma, o Plano Marshall para África deve estar assente na reconstrução dos países devastados pelas guerras, na remoção das barreiras ao comércio e na modernização das indústrias”, referiu. Em síntese, para o Presidente da República, ​ o sucesso do Plano deverá basear-se nos objectivos da Agenda África 2063, em que a União Europeia e​ ​ África deverão cooperar a nível político, económico, social e cultural para assegurar o progresso do continente.


Uso racional dos recursos financeiros

O Presidente João Lourenço argumentou que "o Plano Marshall para África” introduz uma dimensão de exigência na aplicação dos fundos dos parceiros. No plano foi introduzido o conceito de "parcerias reformistas”, isto é, o apoio dos parceiros bilaterais e multilaterais será tanto mais reforçado quanto mais metas da Agenda da União Africana 2063 sejam alcançadas pelos países africanos”.​ ​

​ "Angola defende que os doadores, as instituições financeiras de desenvolvimento e as organizações multilaterais devem introduzir maior flexibilidade na liquidação de empréstimos, criar novos fundos de resposta à crise e ser mais céleres na implementação das iniciativas”, explicou.

"Do nosso lado, fica o compromisso de canalizar os apoios obtidos para as áreas certas e garantir o melhor acompanhamento na execução dos diferentes programas”, anunciou, para referir, em conclusão: "a fraca liderança dos projectos e a insuficiente articulação com os parceiros, pode ter conduzido no passado ao desperdício de recursos, que hoje mais do que nunca importa evitar”.